quinta-feira, 6 de outubro de 2016

Apetite de bom futebol

CRÔNICA

Copa do Mundo de 2014. Eu, diante da tevê. Primeiro jogo da primeira fase. Suíça e Equador, em Brasília.

Eu era um roto faminto diante dum borbulhante fondue dos Alpes. Era exatamente isso. Acostumado a refeições ralinhas, do tipo jogador perna-de-pau mascarado rolando no gramado como se estive empanando-se no fubá, eu estava ali na frente de uma refeição extremamente apetitosa. Senti, de verdade, apetite por futebol.

Aos quarenta e sete minutos do segundo tempo, o suíço Behrami desliza cirurgicamente em sua própria área e rouba a bola do atacante equatoriano. O jogo estava empatado. O heroico volante evitou a derrota de seu time. Mas não estava satisfeito.

Pegou a bola e arrancou para um ataque improvável. Faltava menos de um minuto para o final. Ainda em sua intermediária, é abalroado. Um golpe chamado de “pra matar o contra-ataque”. É neste exato momento que a panela é destampada e um mundo diferente se apresenta.

Aquele gostinho sem sal do jogadorzinho rolando e levando as mãos à canela, satisfeito com o minuto de exclusividade na televisão numa condição de vítima da violência, já não estava à mesa.

Behrami rolou no gramado e se levantou impulsionado pelo próprio golpe do adversário. Um aroma novo e instigante provocou meu paladar.

O árbitro, sensível, enxergou o ingrediente. Abriu os braços num empolgante sinal de “segue o jogo”. Tão estranho ficar feliz com um gesto do juiz!

O suíço atravessa o meio do campo, toca na esquerda para Rodríguez. Poucos segundos para o fim. Ele cruza rasteiro e Seferovic entra como uma agulha e espeta o pedaço de queijo no fundo da rede. Estufa-a.

Enlouquecidos, os vermelhos comemoram correndo para direções diferentes, como fogos de artifício. Uma profusão de sabores. Extasiante.

Na estatística, o tento é de Seferovic. Mas ele apenas salpicou o ramo de cheiro verde no caldeirão de fondue magistralmente preparado por Behrami, um chef.

Algo me surpreendeu, me ofereceu novos sabores e, de certa forma, abriu um horizonte de possibilidades. Meu país estava vendo aquilo, e tive a sensação de que um dia poderíamos ter mais que só o arroz e feijão.

Depois da Copa, vejo que foi apenas uma sensação.

quarta-feira, 15 de junho de 2016

Il fait nuit

CRONIQUETA DE QUINTA


– Estou com uma noite no meu estômago – disse a garotinha.

A mãe franziu a testa, estranhando o anúncio de supetão. Era uma confissão, um desabafo, um lamento…?

Ela tinha apenas seis anos. A mãe não conseguia entender. Observou o seu rostinho. Buscava ver se a noite no estômago estaria lhe causando dor, frio, ansiedade, medo. Mas a expressão da menina era plácida. Parecia até ter um sumidiço sorriso de Gioconda.

Tudo muito estranho. A mãe não conseguiu penetrar naquele mundo. Faltava-lhe algo. Uma poesia, talvez. Resolveu ser direta:

– Como assim? O que você está sentindo?

– Estou sentindo uma noite – disse dócil e colocou as mãozinhas sobre a barriga. – Acho que meu bebê-gatinho está dormindo.




quinta-feira, 9 de junho de 2016

Deserto

CRONIQUETA DE QUINTA


De repente, deserto.

E não adianta chorar. Mas isso acontece quase sempre. Choro no deserto.

Quando mais ninguém está por perto, a gente é obrigado a aprender que o desespero não ajuda. Se nem amigos ajudam, por que o desespero o faria?

Amigos? Quem?

A ajuda acaba vindo do inesperado. E você fica sem dever nada. Porque esses fazem de coração. E coração não tem bolso nem conta nem cartão.

E, no fim, o deserto acaba sendo bom. Porque você descobre. Que não depende de incertas pessoas. Só de si. Que não deve satisfação. Só a si. Que, se cruzou o deserto com os próprios pés, você tem direito a escolher os caminhos adiante. E ninguém tem nada a ver com isso.

Pois se não estavam no deserto, não estarão em lugar algum.



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sexta-feira, 3 de junho de 2016

Ideia solta é cookie perdido

CRÔNICA DA SEMANA

Vira e mexe, pinta uma ideia. Às vezes é para um conto, uma crônica, um filme, um livro, uma foto. Para alguns, vem ideia até para poesia. Mas não é meu caso - quem sabe um dia!

Enfim, ideias pintam. E aquele momento é o momento daquela história. Ela só sobrevive ali.

Incrível como certas ideias não resistem ao tempo. Mesmo sendo anotadas. Elas somem. Acredito que seja porque esse lampejo é mais sensação do que razão. Quer dizer, o sentimento daquele instante – provocado por um cenário, uma música, uma pessoa especial, um cheiro, um sabor ou a combinação de vários desses elementos, sei lá – o sentimento é que gerou a inspiração.

E como o sentimento é volátil, mais tarde tudo vira vapor.

Parece o caso da menina que vendia cookies na Paulista. Passei por ela e pensei em comprar um biscoito daqueles. Fui atraído pela beleza e delicadeza. Eram embalagens artesanais muito bem cuidadas, que deixavam expostos os apetitosos produtos com grandes gotas de chocolate. A plaquinha informava: R$ 3.

Eu tinha no bolso apenas uma nota de R$ 50. Imaginei que a garota não teria troco. E decidi que compraria na volta, quando já teria trocado o dinheiro. Resultado: nunca mais achei a menina dos cookies. Evaporou-se. E penso que nenhum outro cookie terá o sabor daqueles.

Sabe o que eu acho? Que, na vida, certas coisas não merecem esperar. Elas foram feitas para aquele pequeno instante. É ali que vivem e só ali podem ser desfrutadas. Sejam ideias ou prazeres.

Que se dane a pressa! É preciso sentar no chão e escrever a história. Mas que seja escrita inteira. Sorvida e parida toda ali. Porque, se ficar apenas como uma anotação, a ideia vai acabar virando a comida congelada que estragou no freezer. Destino: lixo.

Que se dane tudo, registre. Que se dane o troco, fique com o cookie.




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segunda-feira, 30 de maio de 2016

Ser uma árvore na Amazônia

CRONIQUETA DE QUINTA

Uma porção de verde cercada de verde por todos os lados. Paisagem agrião. Textura brocólica. Imensidão verde. E ao ver de perto, uma árvore. Verde.

Tímida, balançante, de galhos moles e folhas claras. Num fremido desajeitado. Olhei pra ela, pensei: O que é ser uma árvore na Amazônia?

Talvez insignificância. Um quase nada, nada mesmo. Um imperceptível pingo diluído no oceano. Ou talvez partícula essencial. Um tudo no todo. Completude em si.

Eu vi uma Amazônia. Passiva, quieta, estática. E paradoxalmente vívida, pulsante. Abrigo de seres que se movem sobre a terra e sob o verde. Ocultos seres. Casa de todos. Até de uma árvore mole e insignificante. Que é ela própria a casa e o hóspede. Ao mesmo tempo.
Aliás, o tempo. Nesse lugar o tempo não existe. E percebo, sem querer, que não é o tempo que nos envelhece. Mas o mal ao qual nos abraçamos.

Ser uma árvore na Amazônia talvez seja ser o infinito, o eterno. E ficamos mais uma vez sem certezas. Mas o melhor que posso fazer por enquanto é transformar-me em canção.


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segunda-feira, 23 de maio de 2016

Tarefas

CRONIQUETA DE QUINTA


Na cozinha, mulher larga a vassoura e limpa os óculos do dono da empresa.

- Não sei por que não joga essa bosta no lixo. Todo dia isso. Todo dia. O meu... não tenho tempo nem de tirar da cara. Nem sei como eu enxergo.

Foi falando e andando, saiu com os óculos na mão e enfiou o lencinho no avental, a caminho da sala do chefe. Tarefa cumprida.



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quarta-feira, 18 de maio de 2016

Tempo de crise, tempo de criar

CRÔNICA DA SEMANA

Quando você fica sem emprego fixo, muita coisa muda. Principalmente a sensação de estabilidade, que desmorona. Se antes a preocupação era o horário do jantar, agora é até quando vai ter janta. E se não tiver?

Mudam também os hábitos no supermercado. O olho começa a ir primeiro nas etiquetas de preço. Cada centavo conta. E ficamos mais apurados na matemática, fazendo cálculos para evitar o estouro da verba na hora do caixa. A marca do produto passa a ser só um detalhe fugaz. Por exemplo, aquela cerveja toda especial que aparece na TV é tão possível quanto uma bitoca da Marina Ruy Barbosa. Então logo esquecemos.

Mas a grande transformação mesmo é na forma de pensar soluções. Uma pergunta pisca na mente como letreiro de boate: O que eu posso fazer pra ganhar dinheiro?

Então, impõe-se a tal criatividade e é quando surgem as mais brilhantes ideias. Até por isso existe a máxima “na crise, crie”.

Um dia pensei: Já que enxertam frutas na busca de novos sabores, por que não ir além? Por que não desenvolver algo mais ousado? Por exemplo, miscigenar o abacaxi e a alcachofra. Teríamos a abacachofra!

Seria uma fruta-flor interessante. Talvez com miolo macio e suculento, recoberto por pétalas carnudas e cítricas. E se a bicha saísse ruim demais, bastaria propagandear suas vantagens e propriedades terapêuticas: emagrece e diminui o colesterol como nenhum outro alimento, além de amolecer carnes e rejuvenescer a pele. Pronto! Vendeu tudo!

Pensei também em desenvolver um aplicativo de celular. Hoje em dia tudo é app! Que tal baixar aí o BlackCat? Trata-se de um eficiente memorizador de superstições. Veja bem, nesses tempos de excesso de informação, a gente esquece o que comeu no almoço antes mesmo de chegar a sobremesa. Imagine então lembrar de tudo o que deu sorte e azar durante o dia. Entenda:

- Passou a mão no cachorro e saiu o gol do seu time? Marca no aplicativo, para que no próximo jogo você não esqueça de deixar o cachorro ao seu lado durante os 90 minutos, alisando-o a cada jogada de ataque.
- Colocou cueca combinando com a camisa e várias fêmeas olharam para você na rua? Rendeu até risadinha manhosa? Anota no BlackCat! E saberás seu vestuário quando estiver na secura.
- Achou dinheiro no chão?  Anota tudo no app: roupa que estava usando, quem cumprimentou, último carro que passou na rua, o que você comeu no café da manhã etc. Às vezes é preciso combinar as situações para favorecer a boa ventura.

Além disso, o BlackCat já vem com uma lista de superstições e crenças tradicionais, simpatias e lista completa de objetos de sorte e azar. Não é maravilhoso?

Bom, enquanto não emplaco uma dessas - dentre outras guardadas - ideias brilhantes, vou escrevendo e escrevendo. Porque isso é o que realmente eu sei fazer. Pelo menos eu acho.

quinta-feira, 29 de outubro de 2015

Dinheiro contado

CRÔNICA DA SEMANA

Sempre falei, ou melhor, sempre lembro da minha mãe falando pra nunca sair com dinheiro contado. Vai que precisa pra alguma outra coisa. E sempre cumpri à risca.

Mas, ultimamente, as atividades relacionadas a finanças, aqui em casa, são vistas por outro ângulo. Vamos às compras com o que temos em mãos.

Nesse dia tive a incumbência de ir buscar peixe para o almoço. Saí com uma nota de vinte reais. Sei que a moça da peixaria raramente tem troco, então limpei as moedinhas da carteira. Enfiei tudo no bolso.

No caminho, pensava sobre como seria o mundo se realmente houvesse uma conexão com seres de outros planetas e estabelecêssemos um intercâmbio para reorganizar a vida no universo. Incrível como andar a pé (desculpe a redundância) nos permite pensar... divagar... até que a sensação de liberdade nos coloque num lugar onde não percebemos o ridículo. (Ou não seria tão ridículo assim? Quem vai saber?)

Ao despertar, já perto da peixaria, considerei que o peixe deveria ser temperado e não fazia ideia se tínhamos cebola, alho e salsinha em casa. Não importa o prato, o significado de tempero, pra mim, é cebola, alho, salsinha. Pensei: com o troco, passo no mercado e compro.

A conta na peixaria foi de R$ 20,33. Dei a nota de vinte e mais trinta e cinco centavos em moedas. Não teve troco. Aliás, há muito não existe moeda de um centavo. Quando os ETs chegarem, esse é um ponto a se resolver.

Vasculhei o bolso e ainda tinha um real e vinte centavos em moedas. Fui ao mercado. A mocinha do setor de hortifrútis me cumprimentou. Será que cumprimentaria se soubesse o quanto tenho pra gastar?

Lembrei da minha mãe. Agora estava eu ali, escolhendo uma cebola e uma cabeça de alho. Não podiam ser muito grandes, porque o peso poderia exceder minhas possibilidades. Mas também não queria muito pequenas, porque o tamanho feriria meu orgulho.

Fui até a balança, mantendo um comportamento de normalidade. Entreguei o sacão com uma cebola: quarenta e cinco centavos. Muito bem. Outro sacão com o alho: setenta e cinco centavos. Impressionante! Nunca isso se repetirá. A conta exata! Um real e vinte! Nunca mais!

A salsinha. Esqueci da salsinha. Pensei em escamotear um maço debaixo da camisa e... Não! Já era demais. Vai sem salsinha mesmo.


Na reorganização dos planetas - e os ETs hão de concordar -, deveremos todos ter em casa uma mini-horta de ervas e temperos.

quinta-feira, 15 de outubro de 2015

Essas pessoas vão mudar o mundo

CRONIQUETA DE QUINTA

A jovem Caroline acordou com o sentimento à flor da pele. Saiu do Facebook animada.

Tinha lido textos lindos, mensagens inspiradoras. Postagens cheias de exemplos de humanismo e solidariedade. Tanta força positiva que saiu com um pensamento vivo:

- Essas pessoas vão mudar o mundo!

Pisou na rua para ver a mudança com seus próprios olhos. E viu de perto.

Um lixo que floresceu em plena calçada. Buzinas impacientes numa canção harmoniosa com cantadas de pneus. Filas duplas. Filhas das mulas. Funk gratuito para todo o quarteirão, o bairro todo. Até o chão. O chão.

- Essas pessoas vão mudar o mundo?

terça-feira, 13 de outubro de 2015

Bola na rede é erro

CRÔNICA DA SEMANA


Quando meu filho crescer, vou ensinar a ele tudo sobre futebol. O pé ao lado da bola pra chutar com força e direção. O domínio sempre com o pé de fora. A proteção. O bote. E contar todas as minhas histórias de arquibancada.

Então ele cresce e vai jogar... vôlei. Sim, aquele esporte que se pratica com as mãos, não se grita gol, não se dá olé nem existe impedimento. Voleibol.

Alguns amigos, boleiros, consideram isso uma decepção. Mas pra mim não é. O menino vai muito bem, no esporte, com as mãos: no vôlei, no basquete e até como quarterback no futebol americano. Passes longos impressionantes. Se optasse pelo futebol, seria goleiro. Que seja vôlei, então!

Em vez de ensinar, lá fui eu aprender. Sorte minha mulher ser do vôlei. Fica pra ela a incumbência de falar sobre regras e artimanhas em quadra.

Do lado de fora, confesso, sofri no começo. Demorava alguns segundos até entender o que estávamos comemorando. Dois toques, rodízio, condução, invasão, rede. Mais complicado que impedimento! A tensão é muito maior quando se é cego no tiroteio.

Bom é que se preserva a prática de xingar o juiz. Apenas devemos maneirar nos palavrões. Vôlei é um esporte (um pouco) mais educado. Apesar de que certos árbitros merecem homenagens à altura de suas cagadas.

Hoje posso dizer que aprendi o suficiente. Até sei apreciar um bom levantamento e um bloqueio zerado. Admiro um asiático (é uma jogada de defesa, que fique claro). E entendo quando gritam “atrasa!”, “usa!”, “saca na seis!”.

É emocionante, admito.

Minha evolução chegou ao ponto de ser escalado por meu filho para fazer o seu scout, sua estatística nos jogos. Descobri que existe passe A, B, C e D. Não pensem que é fácil torcer, ser pai e anotar um risquinho a cada jogada. Sem falar quando é preciso xingar (educadamente) o juiz. Mas é emocionante!

A vida nos presenteia com surpresas. Basta a gente acolher como decepção ou dádiva. Se nem tudo é exatamente como a gente quer, como canta Lulu, o importante é se divertir, como digo eu mesmo.

No fim das contas sempre há compensações. Minhas histórias de arquibancada valeram de alguma coisa. Não pude ensinar tudo sobre futebol. Mas quando a bola rola, em casa somos todos loucos, torcemos juntos como maloqueiros, sofredores, graças a Deus.

sexta-feira, 9 de outubro de 2015

Tudo em seu devido lugar

CRONIQUETA DE QUINTA

Resolvi inovar na forma de pechinchar.
A ideia surgiu de repente. Li na caixinha do creme de barbear: Para peles sensíveis. Achei que poderia me apropriar dessa informação, adicionar algum humor, criatividade literária e estilo. Ataquei:
– Tem creme de barbear para bolsos sensíveis?
A vendedora respondeu com coesão, coerência e concisão:
– Não.

quarta-feira, 7 de outubro de 2015

Que sorte!

CRÔNICA DA SEMANA

Muvuca em frente ao hospital. Vi de longe a ambulância do SAMU e um pequeno contingente de curiosos. Bem na esquina. Atropelamento. Bem em frente ao hospital.

Admito que detesto essa gente curiosa que se empelota em torno de um acidentado. Principalmente quando estou dirigindo e isso empaca o trânsito.

Mas nesse dia eu estava a pé e, confesso, dei uma parada para ver o que havia ocorrido. Empelotei-me. Não foi curiosidade por curiosidade, foi mais nobre, o dever cronista.

Se eu não parasse, não haveria essa crônica. Se eu não parasse, não teria ouvido o socorrista do SAMU exclamar: “Que sorte!”. De imediato olhei para o acidentado, parecia inconsciente, todo arrebentado, e me interroguei: “Que sorte?”.

Tentei me aproximar para entender onde estava a boa ventura. Na maca, o rapaz com camisa do Palmeiras, olhos fechados, imobilizado até o pescoço, uma perna e um braço enfaixados, parecia uma múmia recém-extraída de seu sarcófago.

Pensei em algo como “sorte que ele se ralou todo, quebrou a perna, esfolou o braço, trincou uma costela, deslocou a coluna, mas ainda está respirando”. Ou seria “sorte que ele foi atropelado bem em frente ao hospital; por um caminhão, mas em frente ao hospital”. Ou seria “sorte que o motorista não era corintiano; teria dado ré”.

Não dava para chegar mais perto. O isolamento não permitia. E aquele bolinho de curiosos! Ouvi um motorista estressadinho buzinando e reclamando da lentidão no trânsito. Não vê que temos uma emergência aqui?

Imaginei também que, talvez, a felicidade do destino pudesse não ter sido do atropelado. O socorrista poderia achar-se ele próprio num dia de sorte. Tipo: “Que sorte ter sido bem em frente ao hospital, assim acabamos logo o serviço e encerro o expediente sem passar do meu horário”.

Ao deduzir isso me afastei da muvuca. Na verdade, foi quando colocaram o estropiado dentro da ambulância e fecharam a porta. Acabou a diversão. O bolinho foi se dissolvendo. A esquina voltava a ser só uma esquina. O trânsito passou a fluir melhor.

Eu, comigo, fiquei chateado pela atitude egoísta do cara do SAMU. Saí pensando. Foi egoísta, sim! Como pôde enxergar sorte naquela situação? Afinal, não era ele quem estava todo arrebentado numa maca, né?

E o egoísmo daquele motorista apressado? Ao buzinar, pensando apenas em seus compromissos mundanos e ignorando que alguém ali lutava pela vida.

E a curiosidade mórbida – e egoísta – daqueles abelhudos em torno do acidente? Não estavam ali para ajudar. Estavam pelo sangue. Pois sempre há pessoas nas esquinas precisando de ajuda, mas não param.

E aquele cara pensando apenas em seu umbigo cronista? Mundo egoísta.




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