CRÔNICA
Copa do Mundo de 2014. Eu, diante da tevê. Primeiro jogo da
primeira fase. Suíça e Equador, em Brasília.
Eu era um roto faminto diante dum borbulhante fondue dos
Alpes. Era exatamente isso. Acostumado a refeições ralinhas, do tipo jogador
perna-de-pau mascarado rolando no gramado como se estive empanando-se no fubá,
eu estava ali na frente de uma refeição extremamente apetitosa. Senti, de
verdade, apetite por futebol.
Aos quarenta e sete minutos do segundo tempo, o suíço
Behrami desliza cirurgicamente em sua própria área e rouba a bola do atacante
equatoriano. O jogo estava empatado. O heroico volante evitou a derrota de seu
time. Mas não estava satisfeito.
Pegou a bola e arrancou para um ataque improvável. Faltava
menos de um minuto para o final. Ainda em sua intermediária, é abalroado. Um
golpe chamado de “pra matar o contra-ataque”. É neste exato momento que a
panela é destampada e um mundo diferente se apresenta.
Aquele gostinho sem sal do jogadorzinho rolando e levando as
mãos à canela, satisfeito com o minuto de exclusividade na televisão numa
condição de vítima da violência, já não estava à mesa.
Behrami rolou no gramado e se levantou impulsionado pelo
próprio golpe do adversário. Um aroma novo e instigante provocou meu paladar.
O árbitro, sensível, enxergou o ingrediente. Abriu os braços
num empolgante sinal de “segue o jogo”. Tão estranho ficar feliz com um gesto
do juiz!
O suíço atravessa o meio do campo, toca na esquerda para
Rodríguez. Poucos segundos para o fim. Ele cruza rasteiro e Seferovic entra
como uma agulha e espeta o pedaço de queijo no fundo da rede. Estufa-a.
Enlouquecidos, os vermelhos comemoram correndo para direções
diferentes, como fogos de artifício. Uma profusão de sabores. Extasiante.
Na estatística, o tento é de Seferovic. Mas ele apenas
salpicou o ramo de cheiro verde no caldeirão de fondue magistralmente preparado
por Behrami, um chef.
Algo me surpreendeu, me ofereceu novos sabores e, de certa
forma, abriu um horizonte de possibilidades. Meu país estava vendo aquilo, e
tive a sensação de que um dia poderíamos ter mais que só o arroz e feijão.
Depois da Copa, vejo que foi apenas uma sensação.
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