segunda-feira, 30 de maio de 2016

Ser uma árvore na Amazônia

CRONIQUETA DE QUINTA

Uma porção de verde cercada de verde por todos os lados. Paisagem agrião. Textura brocólica. Imensidão verde. E ao ver de perto, uma árvore. Verde.

Tímida, balançante, de galhos moles e folhas claras. Num fremido desajeitado. Olhei pra ela, pensei: O que é ser uma árvore na Amazônia?

Talvez insignificância. Um quase nada, nada mesmo. Um imperceptível pingo diluído no oceano. Ou talvez partícula essencial. Um tudo no todo. Completude em si.

Eu vi uma Amazônia. Passiva, quieta, estática. E paradoxalmente vívida, pulsante. Abrigo de seres que se movem sobre a terra e sob o verde. Ocultos seres. Casa de todos. Até de uma árvore mole e insignificante. Que é ela própria a casa e o hóspede. Ao mesmo tempo.
Aliás, o tempo. Nesse lugar o tempo não existe. E percebo, sem querer, que não é o tempo que nos envelhece. Mas o mal ao qual nos abraçamos.

Ser uma árvore na Amazônia talvez seja ser o infinito, o eterno. E ficamos mais uma vez sem certezas. Mas o melhor que posso fazer por enquanto é transformar-me em canção.


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segunda-feira, 23 de maio de 2016

Tarefas

CRONIQUETA DE QUINTA


Na cozinha, mulher larga a vassoura e limpa os óculos do dono da empresa.

- Não sei por que não joga essa bosta no lixo. Todo dia isso. Todo dia. O meu... não tenho tempo nem de tirar da cara. Nem sei como eu enxergo.

Foi falando e andando, saiu com os óculos na mão e enfiou o lencinho no avental, a caminho da sala do chefe. Tarefa cumprida.



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quarta-feira, 18 de maio de 2016

Tempo de crise, tempo de criar

CRÔNICA DA SEMANA

Quando você fica sem emprego fixo, muita coisa muda. Principalmente a sensação de estabilidade, que desmorona. Se antes a preocupação era o horário do jantar, agora é até quando vai ter janta. E se não tiver?

Mudam também os hábitos no supermercado. O olho começa a ir primeiro nas etiquetas de preço. Cada centavo conta. E ficamos mais apurados na matemática, fazendo cálculos para evitar o estouro da verba na hora do caixa. A marca do produto passa a ser só um detalhe fugaz. Por exemplo, aquela cerveja toda especial que aparece na TV é tão possível quanto uma bitoca da Marina Ruy Barbosa. Então logo esquecemos.

Mas a grande transformação mesmo é na forma de pensar soluções. Uma pergunta pisca na mente como letreiro de boate: O que eu posso fazer pra ganhar dinheiro?

Então, impõe-se a tal criatividade e é quando surgem as mais brilhantes ideias. Até por isso existe a máxima “na crise, crie”.

Um dia pensei: Já que enxertam frutas na busca de novos sabores, por que não ir além? Por que não desenvolver algo mais ousado? Por exemplo, miscigenar o abacaxi e a alcachofra. Teríamos a abacachofra!

Seria uma fruta-flor interessante. Talvez com miolo macio e suculento, recoberto por pétalas carnudas e cítricas. E se a bicha saísse ruim demais, bastaria propagandear suas vantagens e propriedades terapêuticas: emagrece e diminui o colesterol como nenhum outro alimento, além de amolecer carnes e rejuvenescer a pele. Pronto! Vendeu tudo!

Pensei também em desenvolver um aplicativo de celular. Hoje em dia tudo é app! Que tal baixar aí o BlackCat? Trata-se de um eficiente memorizador de superstições. Veja bem, nesses tempos de excesso de informação, a gente esquece o que comeu no almoço antes mesmo de chegar a sobremesa. Imagine então lembrar de tudo o que deu sorte e azar durante o dia. Entenda:

- Passou a mão no cachorro e saiu o gol do seu time? Marca no aplicativo, para que no próximo jogo você não esqueça de deixar o cachorro ao seu lado durante os 90 minutos, alisando-o a cada jogada de ataque.
- Colocou cueca combinando com a camisa e várias fêmeas olharam para você na rua? Rendeu até risadinha manhosa? Anota no BlackCat! E saberás seu vestuário quando estiver na secura.
- Achou dinheiro no chão?  Anota tudo no app: roupa que estava usando, quem cumprimentou, último carro que passou na rua, o que você comeu no café da manhã etc. Às vezes é preciso combinar as situações para favorecer a boa ventura.

Além disso, o BlackCat já vem com uma lista de superstições e crenças tradicionais, simpatias e lista completa de objetos de sorte e azar. Não é maravilhoso?

Bom, enquanto não emplaco uma dessas - dentre outras guardadas - ideias brilhantes, vou escrevendo e escrevendo. Porque isso é o que realmente eu sei fazer. Pelo menos eu acho.