CRÔNICA DA SEMANA
Sempre falei, ou melhor, sempre lembro da minha mãe falando
pra nunca sair com dinheiro contado. Vai que precisa pra alguma outra coisa. E
sempre cumpri à risca.
Mas, ultimamente, as atividades relacionadas a finanças,
aqui em casa, são vistas por outro ângulo. Vamos às compras com o que
temos em mãos.
Nesse dia tive a incumbência de ir buscar peixe para o
almoço. Saí com uma nota de vinte reais. Sei que a moça da peixaria raramente
tem troco, então limpei as moedinhas da carteira. Enfiei tudo no bolso.
No caminho, pensava sobre como seria o mundo se realmente
houvesse uma conexão com seres de outros planetas e estabelecêssemos um
intercâmbio para reorganizar a vida no universo. Incrível como andar a pé
(desculpe a redundância) nos permite pensar... divagar... até que a sensação de
liberdade nos coloque num lugar onde não percebemos o ridículo. (Ou não seria
tão ridículo assim? Quem vai saber?)
Ao despertar, já perto da peixaria, considerei que o peixe
deveria ser temperado e não fazia ideia se tínhamos cebola, alho e salsinha em
casa. Não importa o prato, o significado de tempero, pra mim, é cebola, alho,
salsinha. Pensei: com o troco, passo no mercado e compro.
A conta na peixaria foi de R$ 20,33. Dei a nota de vinte e
mais trinta e cinco centavos em moedas. Não teve troco. Aliás, há muito não
existe moeda de um centavo. Quando os ETs chegarem, esse é um ponto a se
resolver.
Vasculhei o bolso e ainda tinha um real e vinte centavos em
moedas. Fui ao mercado. A mocinha do setor de hortifrútis me cumprimentou. Será
que cumprimentaria se soubesse o quanto tenho pra gastar?
Lembrei da minha mãe. Agora estava eu ali, escolhendo uma
cebola e uma cabeça de alho. Não podiam ser muito grandes, porque o peso
poderia exceder minhas possibilidades. Mas também não queria muito pequenas,
porque o tamanho feriria meu orgulho.
Fui até a balança, mantendo um comportamento de normalidade.
Entreguei o sacão com uma cebola: quarenta e cinco centavos. Muito bem. Outro
sacão com o alho: setenta e cinco centavos. Impressionante! Nunca isso se
repetirá. A conta exata! Um real e vinte! Nunca mais!
A salsinha. Esqueci da salsinha. Pensei em escamotear um
maço debaixo da camisa e... Não! Já era demais. Vai sem salsinha mesmo.
Na reorganização dos planetas - e os ETs hão de concordar -,
deveremos todos ter em casa uma mini-horta de ervas e temperos.