quinta-feira, 29 de outubro de 2015

Dinheiro contado

CRÔNICA DA SEMANA

Sempre falei, ou melhor, sempre lembro da minha mãe falando pra nunca sair com dinheiro contado. Vai que precisa pra alguma outra coisa. E sempre cumpri à risca.

Mas, ultimamente, as atividades relacionadas a finanças, aqui em casa, são vistas por outro ângulo. Vamos às compras com o que temos em mãos.

Nesse dia tive a incumbência de ir buscar peixe para o almoço. Saí com uma nota de vinte reais. Sei que a moça da peixaria raramente tem troco, então limpei as moedinhas da carteira. Enfiei tudo no bolso.

No caminho, pensava sobre como seria o mundo se realmente houvesse uma conexão com seres de outros planetas e estabelecêssemos um intercâmbio para reorganizar a vida no universo. Incrível como andar a pé (desculpe a redundância) nos permite pensar... divagar... até que a sensação de liberdade nos coloque num lugar onde não percebemos o ridículo. (Ou não seria tão ridículo assim? Quem vai saber?)

Ao despertar, já perto da peixaria, considerei que o peixe deveria ser temperado e não fazia ideia se tínhamos cebola, alho e salsinha em casa. Não importa o prato, o significado de tempero, pra mim, é cebola, alho, salsinha. Pensei: com o troco, passo no mercado e compro.

A conta na peixaria foi de R$ 20,33. Dei a nota de vinte e mais trinta e cinco centavos em moedas. Não teve troco. Aliás, há muito não existe moeda de um centavo. Quando os ETs chegarem, esse é um ponto a se resolver.

Vasculhei o bolso e ainda tinha um real e vinte centavos em moedas. Fui ao mercado. A mocinha do setor de hortifrútis me cumprimentou. Será que cumprimentaria se soubesse o quanto tenho pra gastar?

Lembrei da minha mãe. Agora estava eu ali, escolhendo uma cebola e uma cabeça de alho. Não podiam ser muito grandes, porque o peso poderia exceder minhas possibilidades. Mas também não queria muito pequenas, porque o tamanho feriria meu orgulho.

Fui até a balança, mantendo um comportamento de normalidade. Entreguei o sacão com uma cebola: quarenta e cinco centavos. Muito bem. Outro sacão com o alho: setenta e cinco centavos. Impressionante! Nunca isso se repetirá. A conta exata! Um real e vinte! Nunca mais!

A salsinha. Esqueci da salsinha. Pensei em escamotear um maço debaixo da camisa e... Não! Já era demais. Vai sem salsinha mesmo.


Na reorganização dos planetas - e os ETs hão de concordar -, deveremos todos ter em casa uma mini-horta de ervas e temperos.

quinta-feira, 15 de outubro de 2015

Essas pessoas vão mudar o mundo

CRONIQUETA DE QUINTA

A jovem Caroline acordou com o sentimento à flor da pele. Saiu do Facebook animada.

Tinha lido textos lindos, mensagens inspiradoras. Postagens cheias de exemplos de humanismo e solidariedade. Tanta força positiva que saiu com um pensamento vivo:

- Essas pessoas vão mudar o mundo!

Pisou na rua para ver a mudança com seus próprios olhos. E viu de perto.

Um lixo que floresceu em plena calçada. Buzinas impacientes numa canção harmoniosa com cantadas de pneus. Filas duplas. Filhas das mulas. Funk gratuito para todo o quarteirão, o bairro todo. Até o chão. O chão.

- Essas pessoas vão mudar o mundo?

terça-feira, 13 de outubro de 2015

Bola na rede é erro

CRÔNICA DA SEMANA


Quando meu filho crescer, vou ensinar a ele tudo sobre futebol. O pé ao lado da bola pra chutar com força e direção. O domínio sempre com o pé de fora. A proteção. O bote. E contar todas as minhas histórias de arquibancada.

Então ele cresce e vai jogar... vôlei. Sim, aquele esporte que se pratica com as mãos, não se grita gol, não se dá olé nem existe impedimento. Voleibol.

Alguns amigos, boleiros, consideram isso uma decepção. Mas pra mim não é. O menino vai muito bem, no esporte, com as mãos: no vôlei, no basquete e até como quarterback no futebol americano. Passes longos impressionantes. Se optasse pelo futebol, seria goleiro. Que seja vôlei, então!

Em vez de ensinar, lá fui eu aprender. Sorte minha mulher ser do vôlei. Fica pra ela a incumbência de falar sobre regras e artimanhas em quadra.

Do lado de fora, confesso, sofri no começo. Demorava alguns segundos até entender o que estávamos comemorando. Dois toques, rodízio, condução, invasão, rede. Mais complicado que impedimento! A tensão é muito maior quando se é cego no tiroteio.

Bom é que se preserva a prática de xingar o juiz. Apenas devemos maneirar nos palavrões. Vôlei é um esporte (um pouco) mais educado. Apesar de que certos árbitros merecem homenagens à altura de suas cagadas.

Hoje posso dizer que aprendi o suficiente. Até sei apreciar um bom levantamento e um bloqueio zerado. Admiro um asiático (é uma jogada de defesa, que fique claro). E entendo quando gritam “atrasa!”, “usa!”, “saca na seis!”.

É emocionante, admito.

Minha evolução chegou ao ponto de ser escalado por meu filho para fazer o seu scout, sua estatística nos jogos. Descobri que existe passe A, B, C e D. Não pensem que é fácil torcer, ser pai e anotar um risquinho a cada jogada. Sem falar quando é preciso xingar (educadamente) o juiz. Mas é emocionante!

A vida nos presenteia com surpresas. Basta a gente acolher como decepção ou dádiva. Se nem tudo é exatamente como a gente quer, como canta Lulu, o importante é se divertir, como digo eu mesmo.

No fim das contas sempre há compensações. Minhas histórias de arquibancada valeram de alguma coisa. Não pude ensinar tudo sobre futebol. Mas quando a bola rola, em casa somos todos loucos, torcemos juntos como maloqueiros, sofredores, graças a Deus.

sexta-feira, 9 de outubro de 2015

Tudo em seu devido lugar

CRONIQUETA DE QUINTA

Resolvi inovar na forma de pechinchar.
A ideia surgiu de repente. Li na caixinha do creme de barbear: Para peles sensíveis. Achei que poderia me apropriar dessa informação, adicionar algum humor, criatividade literária e estilo. Ataquei:
– Tem creme de barbear para bolsos sensíveis?
A vendedora respondeu com coesão, coerência e concisão:
– Não.

quarta-feira, 7 de outubro de 2015

Que sorte!

CRÔNICA DA SEMANA

Muvuca em frente ao hospital. Vi de longe a ambulância do SAMU e um pequeno contingente de curiosos. Bem na esquina. Atropelamento. Bem em frente ao hospital.

Admito que detesto essa gente curiosa que se empelota em torno de um acidentado. Principalmente quando estou dirigindo e isso empaca o trânsito.

Mas nesse dia eu estava a pé e, confesso, dei uma parada para ver o que havia ocorrido. Empelotei-me. Não foi curiosidade por curiosidade, foi mais nobre, o dever cronista.

Se eu não parasse, não haveria essa crônica. Se eu não parasse, não teria ouvido o socorrista do SAMU exclamar: “Que sorte!”. De imediato olhei para o acidentado, parecia inconsciente, todo arrebentado, e me interroguei: “Que sorte?”.

Tentei me aproximar para entender onde estava a boa ventura. Na maca, o rapaz com camisa do Palmeiras, olhos fechados, imobilizado até o pescoço, uma perna e um braço enfaixados, parecia uma múmia recém-extraída de seu sarcófago.

Pensei em algo como “sorte que ele se ralou todo, quebrou a perna, esfolou o braço, trincou uma costela, deslocou a coluna, mas ainda está respirando”. Ou seria “sorte que ele foi atropelado bem em frente ao hospital; por um caminhão, mas em frente ao hospital”. Ou seria “sorte que o motorista não era corintiano; teria dado ré”.

Não dava para chegar mais perto. O isolamento não permitia. E aquele bolinho de curiosos! Ouvi um motorista estressadinho buzinando e reclamando da lentidão no trânsito. Não vê que temos uma emergência aqui?

Imaginei também que, talvez, a felicidade do destino pudesse não ter sido do atropelado. O socorrista poderia achar-se ele próprio num dia de sorte. Tipo: “Que sorte ter sido bem em frente ao hospital, assim acabamos logo o serviço e encerro o expediente sem passar do meu horário”.

Ao deduzir isso me afastei da muvuca. Na verdade, foi quando colocaram o estropiado dentro da ambulância e fecharam a porta. Acabou a diversão. O bolinho foi se dissolvendo. A esquina voltava a ser só uma esquina. O trânsito passou a fluir melhor.

Eu, comigo, fiquei chateado pela atitude egoísta do cara do SAMU. Saí pensando. Foi egoísta, sim! Como pôde enxergar sorte naquela situação? Afinal, não era ele quem estava todo arrebentado numa maca, né?

E o egoísmo daquele motorista apressado? Ao buzinar, pensando apenas em seus compromissos mundanos e ignorando que alguém ali lutava pela vida.

E a curiosidade mórbida – e egoísta – daqueles abelhudos em torno do acidente? Não estavam ali para ajudar. Estavam pelo sangue. Pois sempre há pessoas nas esquinas precisando de ajuda, mas não param.

E aquele cara pensando apenas em seu umbigo cronista? Mundo egoísta.




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