CRÔNICA DA SEMANA
Vira e mexe, pinta uma ideia. Às vezes é para um conto, uma crônica, um filme, um livro, uma foto. Para alguns, vem ideia até para poesia. Mas não é meu caso - quem sabe um dia!
Enfim, ideias pintam. E aquele momento é o momento daquela história. Ela só sobrevive ali.
Incrível como certas ideias não resistem ao tempo. Mesmo sendo anotadas. Elas somem. Acredito que seja porque esse lampejo é mais sensação do que razão. Quer dizer, o sentimento daquele instante – provocado por um cenário, uma música, uma pessoa especial, um cheiro, um sabor ou a combinação de vários desses elementos, sei lá – o sentimento é que gerou a inspiração.
E como o sentimento é volátil, mais tarde tudo vira vapor.
Parece o caso da menina que vendia cookies na Paulista. Passei por ela e pensei em comprar um biscoito daqueles. Fui atraído pela beleza e delicadeza. Eram embalagens artesanais muito bem cuidadas, que deixavam expostos os apetitosos produtos com grandes gotas de chocolate. A plaquinha informava: R$ 3.
Eu tinha no bolso apenas uma nota de R$ 50. Imaginei que a garota não teria troco. E decidi que compraria na volta, quando já teria trocado o dinheiro. Resultado: nunca mais achei a menina dos cookies. Evaporou-se. E penso que nenhum outro cookie terá o sabor daqueles.
Sabe o que eu acho? Que, na vida, certas coisas não merecem esperar. Elas foram feitas para aquele pequeno instante. É ali que vivem e só ali podem ser desfrutadas. Sejam ideias ou prazeres.
Que se dane a pressa! É preciso sentar no chão e escrever a história. Mas que seja escrita inteira. Sorvida e parida toda ali. Porque, se ficar apenas como uma anotação, a ideia vai acabar virando a comida congelada que estragou no freezer. Destino: lixo.
Que se dane tudo, registre. Que se dane o troco, fique com o cookie.
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