Quando meu filho crescer, vou ensinar a ele tudo sobre
futebol. O pé ao lado da bola pra chutar com força e direção. O domínio sempre
com o pé de fora. A proteção. O bote. E contar todas as minhas histórias de
arquibancada.
Então ele cresce e vai jogar... vôlei. Sim, aquele esporte
que se pratica com as mãos, não se grita gol, não se dá olé nem existe
impedimento. Voleibol.
Alguns amigos, boleiros, consideram isso uma decepção. Mas
pra mim não é. O menino vai muito bem, no esporte, com as mãos: no vôlei, no
basquete e até como quarterback no futebol americano. Passes longos
impressionantes. Se optasse pelo futebol, seria goleiro. Que seja vôlei, então!
Em vez de ensinar, lá fui eu aprender. Sorte minha mulher
ser do vôlei. Fica pra ela a incumbência de falar sobre regras e artimanhas em
quadra.
Do lado de fora, confesso, sofri no começo. Demorava alguns
segundos até entender o que estávamos comemorando. Dois toques, rodízio,
condução, invasão, rede. Mais complicado que impedimento! A tensão é muito
maior quando se é cego no tiroteio.
Bom é que se preserva a prática de xingar o juiz. Apenas
devemos maneirar nos palavrões. Vôlei é um esporte (um pouco) mais educado.
Apesar de que certos árbitros merecem homenagens à altura de suas cagadas.
Hoje posso dizer que aprendi o suficiente. Até sei apreciar
um bom levantamento e um bloqueio zerado. Admiro um asiático (é uma jogada de
defesa, que fique claro). E entendo quando gritam “atrasa!”, “usa!”, “saca na
seis!”.
É emocionante, admito.
Minha evolução chegou ao ponto de ser escalado por meu filho
para fazer o seu scout, sua estatística
nos jogos. Descobri que existe passe A, B, C e D. Não pensem que é fácil
torcer, ser pai e anotar um risquinho a cada jogada. Sem falar quando é preciso
xingar (educadamente) o juiz. Mas é emocionante!
A vida nos presenteia com surpresas. Basta a gente acolher
como decepção ou dádiva. Se nem tudo é exatamente como a gente quer, como canta
Lulu, o importante é se divertir, como digo eu mesmo.
No fim das contas sempre há compensações. Minhas histórias de arquibancada valeram de alguma coisa. Não pude ensinar tudo sobre futebol. Mas quando a bola rola, em casa somos todos loucos, torcemos juntos como maloqueiros, sofredores, graças a Deus.
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