terça-feira, 29 de setembro de 2015

O de sempre

CRÔNICA DA SEMANA
Acho que todo mundo tem pequenos devaneios. Pode ser uma vontade boba de surpreender a todos ao cantar “What a Underful World” ou chegar triunfalmente em uma festa a fantasia vestido de Coringa. Uma ideia besta qualquer, como tirar uma foto igual a do Einstein ou ter em casa uma cabeça de manequim ou tocar flauta numa praça. O meu é simples.
Eu, particularmente, sempre sonhei em chegar ao balcão de uma padaria e pedir:
– O de sempre!
Sei lá por que raios, mas este é meu pequeno devaneio. Parece algo megalomaníaco, por remeter àquele personagem de hábitos marcantes, sempre reconhecido, dono de rotina vista com romantismo. Alguém relevante, como nos filmes, livros. Estrelismo. Mas também, paradoxalmente, vejo como sinal de convivência, de proximidade entre as pessoas, de dar importância ao outro. Sociabilidade.
Dia desses, ao pisar numa certa padaria, lembrei dessa ideia besta. Era minha primeira vez ali. Simpatizei com o lugar. E considerei estar no momento da vida que me permite realizar esse sonho. Óbvio, não podia chegar e dizer “o de sempre”. Não seria atendido conforme o desejado. Eu deveria construir o momento. Levaria dias, eu sabia.
Minha tática:
– Escolher um acento ao balcão (terá de ser sempre o mesmo, nem que isso exija dar umas voltas até liberarem o lugar; afinal é importante que se acostumem comigo ali);
– Deixar um livro à vista no balcão (é um acessório que despertará curiosidades; quase ninguém lê na padaria, será um diferencial);
– Sorrir e ser cordial (deve ser melhor atrair simpatia em vez de antipatia);
– Definir um atendente (tem de ser sempre o mesmo ou a mesma, evidente, para que se habitue com o pedido);
– Procurar ir sempre no mesmo horário (pelo mesmo motivo de se criar hábito);
– E, claro, repetir sempre o mesmo pedido.
Simples.
Por estar com tempo de sobra, achei a estratégia realizável. O problema era o pouco dinheiro. Resolvi que o pedido seria um modesto café expresso. E a repetição não passaria de três ou quatro vezes. Era o suficiente.
Fiz tudo conforme o script na primeira vez. Saí satisfeito. Na segunda, tudo correu perfeitamente, até com um breve bate-papo com a atendente sobre cachoeiras. Na terceira vez, fui preparado para observar se já estavam se acostumando comigo, mas a cafeteira estava em manutenção. Para não confundir ninguém, saí sem pedir nada e confesso ter ficado um pouco preocupado com o sucesso do empreendimento.
Na vez seguinte, no entanto, foi maravilhoso. Sentei ao balcão em meu lugar e a atendente veio simpática. Perguntei sobre a saúde da cafeteira (só para reforçar que sou o cara do café expresso) e rimos. Tomei, folheei o livro e saí.
Chegou o dia. Era a hora de realizar. Tudo já construído. Até vesti uma boina para o momento especial. Cheguei, o acento livre, perfeito. Sentei, saquei a boina e a pousei no balcão junto com o livro. Veio uma atendente diferente. Fingi estar em dúvida e fiz sinal para voltar depois. Deu certo, logo veio a minha atendente. Ela se aproximou sorrindo e pronunciei:
– O de sempre!
– O que é mesmo, senhor?
Senti minha face congelada no ar. O sorriso murchando aos pouquinhos e os olhos, sem piscar, tentando captar algum sarcasmo suspenso no ambiente. “Não pode ser”, disse-me meu íntimo. Era o meu sonho e essa paspalha diz “o que é mesmo?”. Até ignorei ter me chamado de senhor. Minha pulsação a xingava de forma ritmada.
– Uma água de coco – soltei. E ela ainda teve o capricho de coroar:
– Ah, é mesmo!
Foi buscar o coco e não sei o que fez com ele. Recolhi minhas coisas e fui embora.

terça-feira, 22 de setembro de 2015

A moça da padaria

CRÔNICA DA SEMANA

No fundo da xícara tinha uma camada viscosa de açúcar dissolvido. O fim do café foi doce. Entornar o finzinho açucarado me fez erguer a cabeça e perceber a graciosa moça da padaria.

Graciosa nem tanto na beleza. Mas no andar, que era um deslizar lento e bailado, como se o resto do mundo estivesse em tempo congelado. Mas no sorriso cordial, que contrastava com os olhinhos de uma tristeza distante, reprimida no fundo da gaveta. Mas na gentileza abnegada e na discrição que a tornava quase invisível.

Percebi tudo isso porque, depois do café, dediquei um restinho de tempo para observá-la. E, agora, já não sei se ela era graciosa ou intrigante.

Nada me interessava nela mais do que seu mistério. Parecia triste, mas devolvia ao mundo gentileza. Isso é encantador. Eu queria vê-la mais, só que na maior parte do tempo a moça ficava escondida atrás do balcão de pães doces. Quando andava, serena e ereta, era possível avistar apenas a sua silhueta entre as broas e croissants.

Aqui, mais à direita, perto do café, ela aparecia por inteiro. Girava e logo voltada ao esconderijo. A exposição era mínima. Eu a caçava com os olhos, mas só conseguia ver sua sombra entre os sonhos.

– Em comparação com a padaria lá de baixo, a gente trabalha pouco. Estamos no paraíso – disse uma funcionária a outra.

Pensei nisso. É claro que a tristeza da moça não era por excesso de trabalho. Era algo sobre amor – paixão, família, sei lá. Pus-me a imaginar. Porque não há nada melhor que imaginar.

Ela havia se separado do noivo há algum tempo, meses talvez, e agora começa a sentir o dissabor da solteirice. Descobriu que estar sozinha não é tão legal assim. Deseja, impetuosa, um novo amor. Não quer demonstrar, mas arde por dentro a vontade de encontrar uma paixão mais quente, aventureira, louca. Alguém capaz de pular de paraquedas, de fazer mergulho noturno, de viajar de moto, de ser carinhoso e ousado ao mesmo tempo, no chicotinho e nas fantasias. Que topa na praia paradisíaca, no meio das ondas, numa pousada gostosinha, no meio do mato, no sofá e na cozinha. Que dorme bem tarde e...

Espera aí! Cadê aquela moça misteriosa e graciosa? Atropelei com um trator? Matei?

Ela voltou para cá, perto do café, e sorria feliz. Brincava debochada com os amigos. A boca larga revelou a falta de um dente na ponta esquerda. Divertia-se à beça, sem qualquer graciosidade ou mistério. Sua risada parecia um Chevette enguiçado. Um pouco rude. Engraçada, até.


Olhei dentro da xícara. Será que o açúcar viscoso era alucinógeno? Mas lembrei que havia me proposto a imaginar. Porque não há nada melhor que imaginar, reinventar, reescrever a história e, claro, errar tudo, ir bem longe do real. Enganar-se.

quinta-feira, 17 de setembro de 2015

Aqueles velhos conselhos

CRONIQUETA DE QUINTA


Estagnado diante da prateleira de cervejas.

Há um tempo pulavam para meu carrinho Heineken e Stella. Depois, foram Skol, Brahma, Itaipava. Agora, eu olhava os preços de Schin, Glacial e...

- Vixi! A cerveja subiu pra burro! - sentenciou um senhor que estacionou com seu carrinho ao meu lado.

Parece que adivinhou. Meu olhar passeava entre rótulos e etiquetas de preço. Ele continuou, com seu sotaque antigo:

- O povo não percebe que tá muito mais caro. Esse povo é besta! 

- Mas o povo vai fazer o quê? - falei em tom de defesa e desesperança.

- Não compra! Deixa tudo aí mofando! Vamos ver se eles não abaixam!

Falou e saiu vagarosamente com seu carrinho. Pensei um pouco. Não comprei nenhuma.

segunda-feira, 14 de setembro de 2015

Jogando em casa

CRÔNICA DA SEMANA

Quem consegue acordar antes das sete e meia da manhã de domingo pra jogar bola? Eu consigo. Eu e mais uma turma que não tem nada melhor pra fazer aos sábados até de madrugada. Às nove, nunca em ponto, já estamos em campo.
Domingo é dia de futebol. É sagrado. Mesmo que tenhamos de passar o resto do dia (muitas vezes a segunda-feira também) arrastando-nos pela casa como vira-lata atropelado. Dor nas costas, no joelho, tornozelo, canela, sola do pé, na orelha, maxilar, até no sovaco. Cada fim de semana é uma novidade.
Mas é assim que funciona. É assim que somos felizes. Lembramos durante a semana inteira do gol feito, do chapéu, da caneta. Chupa! E não importa que o adversário tenha sido um senhorzinho de sessenta anos. Chupa de novo!
Voltando às dores de segunda-feira, tenho apenas uma queixa. Ter de ouvir a mulher dizendo “Ah, assim não vou mais deixar você jogar”, com olhinhos sarcásticos. Faz a dor aumentar em 50%, e a vontade de jogar de novo, em 200%.
Devo avisar que ela também faz seu esporte. Joga vôlei duas vezes por semana.
E confesso que, de tanto ouvir a irônica reprimenda, passei a desejar a ela uma machucadinha. Uma torcidinha no tornozelo, só de leve, um arranhãozinho no nariz feito, sem querer, pela unha da companheira de time (trombadas acontecem). Coisa pouca. Só pra eu poder devolver a provocação.
Não é que um dia aconteceu mesmo! Nem consegui disfarçar o sorrisão: “Assim não vou mais deixar você jogar vôlei” - ataquei.
Ela só mostrou, de forma sutil e elegante, o dedo do meio. E continuou a aplicar gelo no pé. Não foi nada grave, dias depois ela já estava em quadra. Ainda bem, senão meu arrependimento seria ainda maior.
Me arrependi porque as mulheres têm um poder de vingança mil vezes mais potente que o dos homens. É devastador.
Logo no domingo seguinte, levei uma forte (e involuntária) joelhada na parte externa do meu joelho esquerdo. Abalou tudo por dentro. Tomei também uma pancadinha boba (mas arrasadora) na panturrilha direita. Resultado: não sei mancar com as duas pernas ao mesmo tempo.
Ao me ver naquela humilhante situação, tendo de andar apoiado nas paredes e sofá, ela apenas sorriu suave e perguntou se eu queria um gelo ou uma pomada. Senti que a provocação, desta vez, estava embutida em algum lugar, talvez no tom em que pronunciou “um gelo ou uma pomada”.
Não respondi. Não levantei o dedo do meio. E não desejo jamais que aconteça nada de ruim a ela nos próximos jogos.

terça-feira, 8 de setembro de 2015

Um profissional de fritura

CRÔNICA

Tem livro que nos isola do resto do mundo. Ficamos mastigando palavra por palavra. E tudo ao nosso redor é nada. O problema é não conseguirmos ficar invisíveis.

Padaria gostosa, simples. Escolho um lugar à sombra. A mesa do meu lado está iluminada por uma flecha de sol que invade o estabelecimento. Só meia colherinha para adoçar o café e mergulho no portal de papel em minhas mãos.

Macondo. Cigano Melquíades e suas maravilhas fantásticas. E a visita circense dos outros ciganos, a esteira voadora, o homem-víbora, o ovo filosófico. Cem Anos de Solidão. Foi tenso quando perceberam que estavam 50 horas sem dormir.

– Véio é uma merda! Sente frio à toa!

– Oi?

– Véio sente frio à toa – repetiu um senhorzinho que apareceu sentado na mesa aquecida pelo sol. Balancei a cabeça e lhe dei um sorrisinho espontâneo, que deve ter saído bem chocho dado a espontaneidade.

Gole no café e voltei à leitura.

Quase.

– Eu tô acostumado com calor. Fui profissional de fritura.

– Ahan.

– Eu trabalhava com tacho quente de óleo, fritando caju, amendoim, castanha, tudo.

Gente, pode ser interessante conversar com um profissional de fritura, mas naquele momento eu queria saber sobre a epidemia de insônia em Macondo. Além disso, o nível de café ia diminuindo inutilmente em minha xícara.

Houve uma pausa no discurso do fritador (acho que posso chamá-lo assim). Voltei ao livro.

– A gente ponhava soda pra soltar a pelinha do amendoim. Ficava limpinho, lisinho.

Meu São García Marquez! Por que eu ia querer saber disso? Ainda mais eu que sempre preferi amendoim com casquinha, ou pelinha.

– Depois que aposentei, passou um pouco e já me chamaram de volta. Falaram: “Ninguém faz o que você faz”. Voltei lá, era no Ipiranga, e trabalhei mais quatro anos. Agora chega!

A mocinha da padaria veio passando um pano nas mesas. Pensei: ela vai me salvar desse tagarela. Era minha vez de dizer “agora chega”.

– Oi, seu Francisco.

Ai, que bom!

– Oi, minha flor. Tô aqui tomando um solzinho.

– Tá falando sozinho?

– Tomando um solzinho!

– Ah... tá!

– Apesar que acho que tô falando sozinho mesmo – pareceu ter embicado o queixo na minha direção.

Caiu a ficha. Eu fixei os olhos dentro do livro e fingi não ouvir nada. Mas ouvia. E não conseguia mais me concentrar na história. Só pensava em amendoim pululando no tacho quente.

– Ah, seu Francisco, eu converso com o senhor.

Aleluia!

– Não vai querer comer nada hoje?

Espertinha, já casou a venda!

– Sabe, linda, no sábado a gente foi num casamento e eu comi lá um... popó de camarão, que não me fez muito bem.

Popó? Ele disse popó? Como conseguiu comer o popó do camarão?

– Nossa! Com essas coisas de frutos do mar tem que tomar cuidado.

Essa moça é realmente muito gentil!

– E pior foi quando a gente voltou. Meu filho tinha tomado umas, mas quis dirigir. Deu uma tufunhada na traseira de um carro. Não amassou muito, mas já viu, né...

– Ai, que dó, seu Francisco!

Dó que meu café acabou. Dó que não consegui me concentrar no livro. Dó que eu tinha de ir embora e a conversa já estava até ficando boa. Dó que não ia ouvir mais nada sobre frituras, popós e tufunhadas.


sexta-feira, 4 de setembro de 2015

Caiu do carro


CRONIQUETA

Mulher chega aflita e falando ao celular no consultório médico: 

- Tava em cima do carro, aí o carro andou e ele caiu. Agora já tamo aqui no ortopedista.

A senhora recepcionista põe as mãos no rosto e intervém:

- Quem, meu Deus?!

- O exame - explica a mulher à recepcionista, e volta a falar com a pessoa do celular. - Procura aí na frente e, se achar, me liga.

quinta-feira, 3 de setembro de 2015

A um bom vinho

CRONIQUETA

As águas que descem pelo rio regam as videiras desses campos. As uvas viníferas daí colhidas dão forma, cor e vigor a um vinho fino e delicado, ao mesmo tempo robusto e imponente, doador da volúpia e mais prazeres extasiantes. Aroma fresco de pétalas amarelas úmidas ao amanhecer. Sabor nobre e encorpado, enriquecido de mistérios noturnos e castidade em constante ameaça. Menina complexa de olhar juvenil pouco inocente em silhueta insinuante. Gotas rebeldes, adstringentes e adocicadas, aspereza que acaricia e confunde o paladar, gotas que provocam a alma e instigam os desejos. Desvios marotos em labirinto deliciosamente sem saída. Inebriante. Bebida que não se abre, nem se oferece. Mas que daria a vida para ser sorvida lentamente numa apaixonada transfusão mútua de prazeres.

quarta-feira, 2 de setembro de 2015

Pequenas soluções

CRONIQUETA

A menina desenhava quieta e entretida. Estava esparramada no tapete, com a folha de papel no chão e os lápis de cor em volta. A tia viu os rabiscos.

– O que você está fazendo?

– Tô com frio. Então tô desenhando uma fogueira.

– De onde tirou essa ideia? – riu a tia.

– Quando minha mãe tinha saudade do pai dela, desenhava ele.