CRÔNICA DA SEMANA
Acho que todo mundo tem pequenos devaneios. Pode ser uma vontade boba de surpreender a todos ao cantar “What a Underful World” ou chegar triunfalmente em uma festa a fantasia vestido de Coringa. Uma ideia besta qualquer, como tirar uma foto igual a do Einstein ou ter em casa uma cabeça de manequim ou tocar flauta numa praça. O meu é simples.
Eu, particularmente, sempre sonhei em chegar ao balcão de uma padaria e pedir:
– O de sempre!
Sei lá por que raios, mas este é meu pequeno devaneio. Parece algo megalomaníaco, por remeter àquele personagem de hábitos marcantes, sempre reconhecido, dono de rotina vista com romantismo. Alguém relevante, como nos filmes, livros. Estrelismo. Mas também, paradoxalmente, vejo como sinal de convivência, de proximidade entre as pessoas, de dar importância ao outro. Sociabilidade.
Dia desses, ao pisar numa certa padaria, lembrei dessa ideia besta. Era minha primeira vez ali. Simpatizei com o lugar. E considerei estar no momento da vida que me permite realizar esse sonho. Óbvio, não podia chegar e dizer “o de sempre”. Não seria atendido conforme o desejado. Eu deveria construir o momento. Levaria dias, eu sabia.
Minha tática:
– Escolher um acento ao balcão (terá de ser sempre o mesmo, nem que isso exija dar umas voltas até liberarem o lugar; afinal é importante que se acostumem comigo ali);
– Deixar um livro à vista no balcão (é um acessório que despertará curiosidades; quase ninguém lê na padaria, será um diferencial);
– Sorrir e ser cordial (deve ser melhor atrair simpatia em vez de antipatia);
– Definir um atendente (tem de ser sempre o mesmo ou a mesma, evidente, para que se habitue com o pedido);
– Procurar ir sempre no mesmo horário (pelo mesmo motivo de se criar hábito);
– E, claro, repetir sempre o mesmo pedido.
Simples.
Por estar com tempo de sobra, achei a estratégia realizável. O problema era o pouco dinheiro. Resolvi que o pedido seria um modesto café expresso. E a repetição não passaria de três ou quatro vezes. Era o suficiente.
Fiz tudo conforme o script na primeira vez. Saí satisfeito. Na segunda, tudo correu perfeitamente, até com um breve bate-papo com a atendente sobre cachoeiras. Na terceira vez, fui preparado para observar se já estavam se acostumando comigo, mas a cafeteira estava em manutenção. Para não confundir ninguém, saí sem pedir nada e confesso ter ficado um pouco preocupado com o sucesso do empreendimento.
Na vez seguinte, no entanto, foi maravilhoso. Sentei ao balcão em meu lugar e a atendente veio simpática. Perguntei sobre a saúde da cafeteira (só para reforçar que sou o cara do café expresso) e rimos. Tomei, folheei o livro e saí.
Chegou o dia. Era a hora de realizar. Tudo já construído. Até vesti uma boina para o momento especial. Cheguei, o acento livre, perfeito. Sentei, saquei a boina e a pousei no balcão junto com o livro. Veio uma atendente diferente. Fingi estar em dúvida e fiz sinal para voltar depois. Deu certo, logo veio a minha atendente. Ela se aproximou sorrindo e pronunciei:
– O de sempre!
– O que é mesmo, senhor?
Senti minha face congelada no ar. O sorriso murchando aos pouquinhos e os olhos, sem piscar, tentando captar algum sarcasmo suspenso no ambiente. “Não pode ser”, disse-me meu íntimo. Era o meu sonho e essa paspalha diz “o que é mesmo?”. Até ignorei ter me chamado de senhor. Minha pulsação a xingava de forma ritmada.
– Uma água de coco – soltei. E ela ainda teve o capricho de coroar:
– Ah, é mesmo!
Foi buscar o coco e não sei o que fez com ele. Recolhi minhas coisas e fui embora.



