CRONIQUETA DE QUINTA
– Estou com uma noite no meu estômago – disse a garotinha.
A mãe franziu a testa, estranhando o anúncio de supetão. Era uma confissão, um desabafo, um lamento…?
Ela tinha apenas seis anos. A mãe não conseguia entender. Observou o seu rostinho. Buscava ver se a noite no estômago estaria lhe causando dor, frio, ansiedade, medo. Mas a expressão da menina era plácida. Parecia até ter um sumidiço sorriso de Gioconda.
Tudo muito estranho. A mãe não conseguiu penetrar naquele mundo. Faltava-lhe algo. Uma poesia, talvez. Resolveu ser direta:
– Como assim? O que você está sentindo?
– Estou sentindo uma noite – disse dócil e colocou as mãozinhas sobre a barriga. – Acho que meu bebê-gatinho está dormindo.
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