quarta-feira, 15 de junho de 2016

Il fait nuit

CRONIQUETA DE QUINTA


– Estou com uma noite no meu estômago – disse a garotinha.

A mãe franziu a testa, estranhando o anúncio de supetão. Era uma confissão, um desabafo, um lamento…?

Ela tinha apenas seis anos. A mãe não conseguia entender. Observou o seu rostinho. Buscava ver se a noite no estômago estaria lhe causando dor, frio, ansiedade, medo. Mas a expressão da menina era plácida. Parecia até ter um sumidiço sorriso de Gioconda.

Tudo muito estranho. A mãe não conseguiu penetrar naquele mundo. Faltava-lhe algo. Uma poesia, talvez. Resolveu ser direta:

– Como assim? O que você está sentindo?

– Estou sentindo uma noite – disse dócil e colocou as mãozinhas sobre a barriga. – Acho que meu bebê-gatinho está dormindo.




quinta-feira, 9 de junho de 2016

Deserto

CRONIQUETA DE QUINTA


De repente, deserto.

E não adianta chorar. Mas isso acontece quase sempre. Choro no deserto.

Quando mais ninguém está por perto, a gente é obrigado a aprender que o desespero não ajuda. Se nem amigos ajudam, por que o desespero o faria?

Amigos? Quem?

A ajuda acaba vindo do inesperado. E você fica sem dever nada. Porque esses fazem de coração. E coração não tem bolso nem conta nem cartão.

E, no fim, o deserto acaba sendo bom. Porque você descobre. Que não depende de incertas pessoas. Só de si. Que não deve satisfação. Só a si. Que, se cruzou o deserto com os próprios pés, você tem direito a escolher os caminhos adiante. E ninguém tem nada a ver com isso.

Pois se não estavam no deserto, não estarão em lugar algum.



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sexta-feira, 3 de junho de 2016

Ideia solta é cookie perdido

CRÔNICA DA SEMANA

Vira e mexe, pinta uma ideia. Às vezes é para um conto, uma crônica, um filme, um livro, uma foto. Para alguns, vem ideia até para poesia. Mas não é meu caso - quem sabe um dia!

Enfim, ideias pintam. E aquele momento é o momento daquela história. Ela só sobrevive ali.

Incrível como certas ideias não resistem ao tempo. Mesmo sendo anotadas. Elas somem. Acredito que seja porque esse lampejo é mais sensação do que razão. Quer dizer, o sentimento daquele instante – provocado por um cenário, uma música, uma pessoa especial, um cheiro, um sabor ou a combinação de vários desses elementos, sei lá – o sentimento é que gerou a inspiração.

E como o sentimento é volátil, mais tarde tudo vira vapor.

Parece o caso da menina que vendia cookies na Paulista. Passei por ela e pensei em comprar um biscoito daqueles. Fui atraído pela beleza e delicadeza. Eram embalagens artesanais muito bem cuidadas, que deixavam expostos os apetitosos produtos com grandes gotas de chocolate. A plaquinha informava: R$ 3.

Eu tinha no bolso apenas uma nota de R$ 50. Imaginei que a garota não teria troco. E decidi que compraria na volta, quando já teria trocado o dinheiro. Resultado: nunca mais achei a menina dos cookies. Evaporou-se. E penso que nenhum outro cookie terá o sabor daqueles.

Sabe o que eu acho? Que, na vida, certas coisas não merecem esperar. Elas foram feitas para aquele pequeno instante. É ali que vivem e só ali podem ser desfrutadas. Sejam ideias ou prazeres.

Que se dane a pressa! É preciso sentar no chão e escrever a história. Mas que seja escrita inteira. Sorvida e parida toda ali. Porque, se ficar apenas como uma anotação, a ideia vai acabar virando a comida congelada que estragou no freezer. Destino: lixo.

Que se dane tudo, registre. Que se dane o troco, fique com o cookie.




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