CRÔNICA DA SEMANA
Muvuca em frente ao hospital. Vi de longe a ambulância do
SAMU e um pequeno contingente de curiosos. Bem na esquina. Atropelamento. Bem
em frente ao hospital.
Admito que detesto essa gente curiosa que se empelota em
torno de um acidentado. Principalmente quando estou dirigindo e isso empaca o
trânsito.
Mas nesse dia eu estava a pé e, confesso, dei uma parada
para ver o que havia ocorrido. Empelotei-me. Não foi curiosidade por curiosidade,
foi mais nobre, o dever cronista.
Se eu não parasse, não haveria essa crônica. Se eu não
parasse, não teria ouvido o socorrista do SAMU exclamar: “Que sorte!”. De
imediato olhei para o acidentado, parecia inconsciente, todo arrebentado, e me
interroguei: “Que sorte?”.
Tentei me aproximar para entender onde estava a boa ventura.
Na maca, o rapaz com camisa do Palmeiras, olhos fechados, imobilizado até o
pescoço, uma perna e um braço enfaixados, parecia uma múmia recém-extraída de
seu sarcófago.
Pensei em algo como “sorte que ele se ralou todo, quebrou a
perna, esfolou o braço, trincou uma costela, deslocou a coluna, mas ainda está
respirando”. Ou seria “sorte que ele foi atropelado bem em frente ao hospital;
por um caminhão, mas em frente ao hospital”. Ou seria “sorte que o motorista
não era corintiano; teria dado ré”.
Não dava para chegar mais perto. O isolamento não permitia. E
aquele bolinho de curiosos! Ouvi um motorista estressadinho buzinando e
reclamando da lentidão no trânsito. Não vê que temos uma emergência aqui?
Imaginei também que, talvez, a felicidade do destino pudesse
não ter sido do atropelado. O socorrista poderia achar-se ele próprio num dia
de sorte. Tipo: “Que sorte ter sido bem em frente ao hospital, assim acabamos
logo o serviço e encerro o expediente sem passar do meu horário”.
Ao deduzir isso me afastei da muvuca. Na verdade, foi quando
colocaram o estropiado dentro da ambulância e fecharam a porta. Acabou a
diversão. O bolinho foi se dissolvendo. A esquina voltava a ser só uma esquina.
O trânsito passou a fluir melhor.
Eu, comigo, fiquei chateado pela atitude egoísta do cara do
SAMU. Saí pensando. Foi egoísta, sim! Como pôde enxergar sorte naquela
situação? Afinal, não era ele quem estava todo arrebentado numa maca, né?
E o egoísmo daquele motorista apressado? Ao buzinar,
pensando apenas em seus compromissos mundanos e ignorando que alguém ali lutava
pela vida.
E a curiosidade mórbida – e egoísta – daqueles abelhudos em
torno do acidente? Não estavam ali para ajudar. Estavam pelo sangue. Pois
sempre há pessoas nas esquinas precisando de ajuda, mas não param.
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