CRÔNICA
Tem livro que nos isola do resto do mundo. Ficamos mastigando palavra por palavra. E tudo ao nosso redor é nada. O problema é não conseguirmos ficar invisíveis.
Tem livro que nos isola do resto do mundo. Ficamos mastigando palavra por palavra. E tudo ao nosso redor é nada. O problema é não conseguirmos ficar invisíveis.
Padaria gostosa, simples. Escolho um lugar à sombra. A mesa do
meu lado está iluminada por uma flecha de sol que invade o estabelecimento. Só
meia colherinha para adoçar o café e mergulho no portal de papel em minhas
mãos.
Macondo. Cigano Melquíades e suas maravilhas fantásticas. E
a visita circense dos outros ciganos, a esteira voadora, o homem-víbora, o ovo
filosófico. Cem Anos de Solidão. Foi tenso quando perceberam que estavam 50
horas sem dormir.
– Véio é uma merda! Sente frio à toa!
– Oi?
– Véio sente frio à toa – repetiu um senhorzinho que
apareceu sentado na mesa aquecida pelo sol. Balancei a cabeça e lhe dei um
sorrisinho espontâneo, que deve ter saído bem chocho dado a espontaneidade.
Gole no café e voltei à leitura.
Quase.
– Eu tô acostumado com calor. Fui profissional de fritura.
– Ahan.
– Eu trabalhava com tacho quente de óleo, fritando caju,
amendoim, castanha, tudo.
Gente, pode ser interessante conversar com um profissional
de fritura, mas naquele momento eu queria saber sobre a epidemia de insônia em
Macondo. Além disso, o nível de café ia diminuindo inutilmente em minha xícara.
Houve uma pausa no discurso do fritador (acho que posso chamá-lo
assim). Voltei ao livro.
– A gente ponhava
soda pra soltar a pelinha do amendoim. Ficava limpinho, lisinho.
Meu São García Marquez! Por que eu ia querer saber disso? Ainda
mais eu que sempre preferi amendoim com casquinha, ou pelinha.
– Depois que aposentei, passou um pouco e já me chamaram de
volta. Falaram: “Ninguém faz o que você faz”. Voltei lá, era no Ipiranga, e
trabalhei mais quatro anos. Agora chega!
A mocinha da padaria veio passando um pano nas mesas.
Pensei: ela vai me salvar desse tagarela. Era minha vez de dizer “agora chega”.
– Oi, seu Francisco.
Ai, que bom!
– Oi, minha flor. Tô aqui tomando um solzinho.
– Tá falando sozinho?
– Tomando um solzinho!
– Ah... tá!
– Apesar que acho que tô falando sozinho mesmo – pareceu ter
embicado o queixo na minha direção.
Caiu a ficha. Eu fixei os olhos dentro do livro e fingi não
ouvir nada. Mas ouvia. E não conseguia mais me concentrar na história. Só
pensava em amendoim pululando no tacho quente.
– Ah, seu Francisco, eu converso com o senhor.
Aleluia!
– Não vai querer comer nada hoje?
Espertinha, já casou a venda!
– Sabe, linda, no sábado a gente foi num casamento e eu comi
lá um... popó de camarão, que não me fez muito bem.
Popó? Ele disse popó? Como conseguiu comer o popó do
camarão?
– Nossa! Com essas coisas de frutos do mar tem que tomar
cuidado.
Essa moça é realmente muito gentil!
– E pior foi quando a gente voltou. Meu filho tinha tomado
umas, mas quis dirigir. Deu uma tufunhada
na traseira de um carro. Não amassou muito, mas já viu, né...
– Ai, que dó, seu Francisco!
Dó que meu café acabou. Dó que não consegui me concentrar no livro. Dó que eu tinha de ir embora e a conversa já estava até ficando boa. Dó que não ia ouvir mais nada sobre frituras, popós e tufunhadas.

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