terça-feira, 8 de setembro de 2015

Um profissional de fritura

CRÔNICA

Tem livro que nos isola do resto do mundo. Ficamos mastigando palavra por palavra. E tudo ao nosso redor é nada. O problema é não conseguirmos ficar invisíveis.

Padaria gostosa, simples. Escolho um lugar à sombra. A mesa do meu lado está iluminada por uma flecha de sol que invade o estabelecimento. Só meia colherinha para adoçar o café e mergulho no portal de papel em minhas mãos.

Macondo. Cigano Melquíades e suas maravilhas fantásticas. E a visita circense dos outros ciganos, a esteira voadora, o homem-víbora, o ovo filosófico. Cem Anos de Solidão. Foi tenso quando perceberam que estavam 50 horas sem dormir.

– Véio é uma merda! Sente frio à toa!

– Oi?

– Véio sente frio à toa – repetiu um senhorzinho que apareceu sentado na mesa aquecida pelo sol. Balancei a cabeça e lhe dei um sorrisinho espontâneo, que deve ter saído bem chocho dado a espontaneidade.

Gole no café e voltei à leitura.

Quase.

– Eu tô acostumado com calor. Fui profissional de fritura.

– Ahan.

– Eu trabalhava com tacho quente de óleo, fritando caju, amendoim, castanha, tudo.

Gente, pode ser interessante conversar com um profissional de fritura, mas naquele momento eu queria saber sobre a epidemia de insônia em Macondo. Além disso, o nível de café ia diminuindo inutilmente em minha xícara.

Houve uma pausa no discurso do fritador (acho que posso chamá-lo assim). Voltei ao livro.

– A gente ponhava soda pra soltar a pelinha do amendoim. Ficava limpinho, lisinho.

Meu São García Marquez! Por que eu ia querer saber disso? Ainda mais eu que sempre preferi amendoim com casquinha, ou pelinha.

– Depois que aposentei, passou um pouco e já me chamaram de volta. Falaram: “Ninguém faz o que você faz”. Voltei lá, era no Ipiranga, e trabalhei mais quatro anos. Agora chega!

A mocinha da padaria veio passando um pano nas mesas. Pensei: ela vai me salvar desse tagarela. Era minha vez de dizer “agora chega”.

– Oi, seu Francisco.

Ai, que bom!

– Oi, minha flor. Tô aqui tomando um solzinho.

– Tá falando sozinho?

– Tomando um solzinho!

– Ah... tá!

– Apesar que acho que tô falando sozinho mesmo – pareceu ter embicado o queixo na minha direção.

Caiu a ficha. Eu fixei os olhos dentro do livro e fingi não ouvir nada. Mas ouvia. E não conseguia mais me concentrar na história. Só pensava em amendoim pululando no tacho quente.

– Ah, seu Francisco, eu converso com o senhor.

Aleluia!

– Não vai querer comer nada hoje?

Espertinha, já casou a venda!

– Sabe, linda, no sábado a gente foi num casamento e eu comi lá um... popó de camarão, que não me fez muito bem.

Popó? Ele disse popó? Como conseguiu comer o popó do camarão?

– Nossa! Com essas coisas de frutos do mar tem que tomar cuidado.

Essa moça é realmente muito gentil!

– E pior foi quando a gente voltou. Meu filho tinha tomado umas, mas quis dirigir. Deu uma tufunhada na traseira de um carro. Não amassou muito, mas já viu, né...

– Ai, que dó, seu Francisco!

Dó que meu café acabou. Dó que não consegui me concentrar no livro. Dó que eu tinha de ir embora e a conversa já estava até ficando boa. Dó que não ia ouvir mais nada sobre frituras, popós e tufunhadas.


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