terça-feira, 22 de setembro de 2015

A moça da padaria

CRÔNICA DA SEMANA

No fundo da xícara tinha uma camada viscosa de açúcar dissolvido. O fim do café foi doce. Entornar o finzinho açucarado me fez erguer a cabeça e perceber a graciosa moça da padaria.

Graciosa nem tanto na beleza. Mas no andar, que era um deslizar lento e bailado, como se o resto do mundo estivesse em tempo congelado. Mas no sorriso cordial, que contrastava com os olhinhos de uma tristeza distante, reprimida no fundo da gaveta. Mas na gentileza abnegada e na discrição que a tornava quase invisível.

Percebi tudo isso porque, depois do café, dediquei um restinho de tempo para observá-la. E, agora, já não sei se ela era graciosa ou intrigante.

Nada me interessava nela mais do que seu mistério. Parecia triste, mas devolvia ao mundo gentileza. Isso é encantador. Eu queria vê-la mais, só que na maior parte do tempo a moça ficava escondida atrás do balcão de pães doces. Quando andava, serena e ereta, era possível avistar apenas a sua silhueta entre as broas e croissants.

Aqui, mais à direita, perto do café, ela aparecia por inteiro. Girava e logo voltada ao esconderijo. A exposição era mínima. Eu a caçava com os olhos, mas só conseguia ver sua sombra entre os sonhos.

– Em comparação com a padaria lá de baixo, a gente trabalha pouco. Estamos no paraíso – disse uma funcionária a outra.

Pensei nisso. É claro que a tristeza da moça não era por excesso de trabalho. Era algo sobre amor – paixão, família, sei lá. Pus-me a imaginar. Porque não há nada melhor que imaginar.

Ela havia se separado do noivo há algum tempo, meses talvez, e agora começa a sentir o dissabor da solteirice. Descobriu que estar sozinha não é tão legal assim. Deseja, impetuosa, um novo amor. Não quer demonstrar, mas arde por dentro a vontade de encontrar uma paixão mais quente, aventureira, louca. Alguém capaz de pular de paraquedas, de fazer mergulho noturno, de viajar de moto, de ser carinhoso e ousado ao mesmo tempo, no chicotinho e nas fantasias. Que topa na praia paradisíaca, no meio das ondas, numa pousada gostosinha, no meio do mato, no sofá e na cozinha. Que dorme bem tarde e...

Espera aí! Cadê aquela moça misteriosa e graciosa? Atropelei com um trator? Matei?

Ela voltou para cá, perto do café, e sorria feliz. Brincava debochada com os amigos. A boca larga revelou a falta de um dente na ponta esquerda. Divertia-se à beça, sem qualquer graciosidade ou mistério. Sua risada parecia um Chevette enguiçado. Um pouco rude. Engraçada, até.


Olhei dentro da xícara. Será que o açúcar viscoso era alucinógeno? Mas lembrei que havia me proposto a imaginar. Porque não há nada melhor que imaginar, reinventar, reescrever a história e, claro, errar tudo, ir bem longe do real. Enganar-se.

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