Quem consegue acordar antes das sete e meia da manhã de domingo pra jogar bola? Eu consigo. Eu e mais uma turma que não tem nada melhor pra fazer aos sábados até de madrugada. Às nove, nunca em ponto, já estamos em campo.
Domingo é dia de futebol. É sagrado. Mesmo que tenhamos de passar o resto do dia (muitas vezes a segunda-feira também) arrastando-nos pela casa como vira-lata atropelado. Dor nas costas, no joelho, tornozelo, canela, sola do pé, na orelha, maxilar, até no sovaco. Cada fim de semana é uma novidade.
Mas é assim que funciona. É assim que somos felizes. Lembramos durante a semana inteira do gol feito, do chapéu, da caneta. Chupa! E não importa que o adversário tenha sido um senhorzinho de sessenta anos. Chupa de novo!
Voltando às dores de segunda-feira, tenho apenas uma queixa. Ter de ouvir a mulher dizendo “Ah, assim não vou mais deixar você jogar”, com olhinhos sarcásticos. Faz a dor aumentar em 50%, e a vontade de jogar de novo, em 200%.
Devo avisar que ela também faz seu esporte. Joga vôlei duas vezes por semana.
E confesso que, de tanto ouvir a irônica reprimenda, passei a desejar a ela uma machucadinha. Uma torcidinha no tornozelo, só de leve, um arranhãozinho no nariz feito, sem querer, pela unha da companheira de time (trombadas acontecem). Coisa pouca. Só pra eu poder devolver a provocação.
Não é que um dia aconteceu mesmo! Nem consegui disfarçar o sorrisão: “Assim não vou mais deixar você jogar vôlei” - ataquei.
Ela só mostrou, de forma sutil e elegante, o dedo do meio. E continuou a aplicar gelo no pé. Não foi nada grave, dias depois ela já estava em quadra. Ainda bem, senão meu arrependimento seria ainda maior.
Me arrependi porque as mulheres têm um poder de vingança mil vezes mais potente que o dos homens. É devastador.
Logo no domingo seguinte, levei uma forte (e involuntária) joelhada na parte externa do meu joelho esquerdo. Abalou tudo por dentro. Tomei também uma pancadinha boba (mas arrasadora) na panturrilha direita. Resultado: não sei mancar com as duas pernas ao mesmo tempo.
Ao me ver naquela humilhante situação, tendo de andar apoiado nas paredes e sofá, ela apenas sorriu suave e perguntou se eu queria um gelo ou uma pomada. Senti que a provocação, desta vez, estava embutida em algum lugar, talvez no tom em que pronunciou “um gelo ou uma pomada”.
Não respondi. Não levantei o dedo do meio. E não desejo jamais que aconteça nada de ruim a ela nos próximos jogos.

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