CRÔNICA
Aquele dia eu tinha acordado com a alma benevolente. Sabe quando você sai na rua com vontade de abraçar o mundo, “de beijar o português da padaria” e até sorri pro cachorro pulguento na calçada? Então, era esse dia.
Tudo ia bem. Apesar que o cachorro pareceu preferir uma salsicha ao meu sorriso.
Fui ao mercado a pé. Entrei felizão no estabelecimento e, de cara, vi uma senhora subindo pela esteira rolante que descia. Isso mesmo.
Esse mercado fica no andar superior e a esteira serve para os clientes descerem com seus carrinhos cheios. Mas a senhorinha estava tentando subir por ali.
Andei mais devagar, olhando cismado pra ela. Parei. Em poucos segundos, várias coisas passaram pela minha cabeça.
1 – Estaria ela fazendo exercícios ergométricos?
2 – Seria uma senhora fugitiva de um asilo e um pouco fora do seu juízo?
3 – Seria uma pagadora de promessas em tempos modernos?
4 – Estaria eu participando de um desses vídeos engraçados de internet, uma ação de marketing viral feita com câmera escondida ou algo assim?
5 – Ou seria apenas uma velhinha que pegou a esteira errada?
2 – Seria uma senhora fugitiva de um asilo e um pouco fora do seu juízo?
3 – Seria uma pagadora de promessas em tempos modernos?
4 – Estaria eu participando de um desses vídeos engraçados de internet, uma ação de marketing viral feita com câmera escondida ou algo assim?
5 – Ou seria apenas uma velhinha que pegou a esteira errada?
Como falei, minha alma estava benevolente.
– Senhora, essa é a saída.
– Agora já estou aqui – e continuou andando.
Desisto ou não?, pensei.
– Senhora, a entrada é por lá. Tem outra esteira que sobe.
– Oi?
Nesse momento ela parou de andar e olhou pra mim. A esteira começou a levá-la pra trás. Pensei: “Que merda eu fui fazer? Essa velha vai se esborrachar ali embaixo”.
Ameacei correr para segurá-la, mas logo ela chegou ao fim da esteira. Tropeçou na terra firme, deixou as sacolas caírem no chão, bambeou, só que se segurou em pé. Graças aos anjos que protegem os velhinhos sozinhos pela cidade.
Me aproximei e a conduzi até a esteira certa. Ela explicou que nunca vai àquele mercado, que quem faz as compras é sua filha. Seguiu impávida.
Passado o susto, cheguei à conclusão de que minha alma benevolente quase havia matado uma velhinha. Acho que nem sempre o mundo está em sintonia com nossa benevolência.
Por via das dúvidas, comprei uma salsicha pro cachorro.

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